quinta-feira, 24 de julho de 2014

DO INDIGNADICÍDIO

Placa de trânsito com os dizeres: Indignado à bordo
Atenção: vocês estão cometendo um covarde indignadicídio!

Pesquisar e estudar sobre cidadania e direitos humanos neste meu doutoramento tem transformado as minhas mais profundas instâncias. O ser indignado que me habita tem se manifestado e incomodado muita gente. Mas isto é efeito e não causa, eu sinto a força da máquina que comete esse indignadicídio geral e procuro me manter em pé...

Há muito tempo sabemos que exercer a cidadania exige uma capacidade super-heroica para engolir sapos cada vez mais robustos e fáceis de entalar. Por um outro lado, um mais hipócrita, hoje em dia está muito fácil criticar os governos, mas também perpetuar as suas mesmas lógicas enfadonhas quando se tem acesso a qualquer tipo de poder. Não importa se é um poder de Síndico de Prédio, de Diretor de Escola ou o de Presidente da República, se a mentalidade for reacionária a pessoa replicará as mesmas perversidades lógicas e típicas dos absolutistas monárquicos.

Hoje de madrugada, enquanto eu estudava, trombei com este texto (abaixo) que me fez refletir ainda mais sobre o universo que habito e cheguei à conclusão de que o meu exercício de enxergar o mundo por vários prismas desagrada a muita gente. As pessoas não assumem, mas de fato nos querem domadas e marchando sob a mesma loucura compartilhada e definitivamente isso não serve pra mim!

Juro que estive pensando seriamente em desistir de carregar esse peso todo e buscar uma vida mais segura, inútil e débil, mas este texto me deu ânimo para seguir na luta por JUSTIÇA para além da retórica estética das atas, dos capítulos, das falas mansas, dos moralismos tradicionais, familiares e patrimoniais.

Obrigado Alexandre Sá, você salvou um indignado hoje, qualquer semelhança é mera coincidência:
"O cidadão aparece assim, ainda no decurso do período político absolutista, através da emergência de um público crítico e comunicativo. Este surge através da expansão de uma progressiva esfera de discussão, confrontação e debate, onde se esboçam e desenvolvem o raciocínio e o argumento.

O fim do absolutismo monárquico do século XVIII e a emergência do parlamentarismo alimentam-se justamente desta expansão, do alargamento do público e da crítica e, consequentemente, da convicção de que a moral pode influenciar a política, ou seja, de que as diferenças de pontos de vista, assim como a sua discussão, não apenas podem, mas devem influenciar eficazmente decisões governamentais que, como tal, devem ser tomadas publicamente, à vista de todos, sem recorrer ao segredo exigido pelo critério exclusivamente político da razão de Estado.

A partir da expansão de um público crítico e esclarecido, as instituições políticas fundamentais podem e devem ser a expressão da comunicação, da discussão e do debate, do argumento e do raciocínio, que ao próprio público são intrínsecos. É neste sentido que Guizot pode justificar a instituição parlamentar do seguinte modo: 'A característica do sistema que não admite, em lado nenhum, a legitimidade do poder absoluto é a de obrigar todos os cidadãos a procurarem sem cessar, e em cada ocasião, a verdade, a razão, a justiça, que devem regular o poder de facto.' " (SÁ, Alexandre. Media, mass media, novos media e a crise da cidadania in Informação e Comunicação Online (vol III) - Mundo online da vida e da cidadania, p.9, 2003.)

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